Deixa eu ver, deixa eu ver
O Christian Dechery, além de saber muito sobre tecnologia, adora filosofar. Há algum tempo sugeri que escrevesse alguns textos linkando a filosofia a tecnologia. Parece que ele aceitou a sugestão e ontem me enviou o primeiro texto, que publico a seguir.
A quantidade de informação publicada nesse blog é muito grande, geralmente postamos artigos técnicos ou análises de mercado. Contudo os textos do Christian têm uma proposta mais abrangente. Além de informar seus textos demandam uma abstração e reflexão sobre pequenos, ou grandes, adventos que estão mudando toda nossa cultura.
Apresentação feita, não vou mais tomar seu tempo, boa leitura!
Estamos na era digital, isso é um fato, caso você queira enfrentá-la ou não. Ainda que grande parte do mundo se encontre em baixíssimos e desanimadores(?) estados de evolução tecnológica, o digital vem mudando cada vez mais a cara do planeta.
A digitalização é um processo de evolução tecnológica inevitável, pois tudo que é digital é mais barato, mais aplicável e muito mais escalável. Não é de hoje, porém, esse processo, ainda que os adolescentes e jovens de hoje tenham dificuldades em imaginar um mundo sem MP3. Muitas coisas do nosso dia-a-dia já são “digitais” a muito tempo, ainda que essa digitalização tenha passado desapercebida pela maioria. Apenas uma melhora no produto ou serviço é notada, mas não sabem exatamente como ou por quê. As centrais telefônicas por exemplo, na minha infância – quando a internet não existia por aqui – eram analógicas e sofríamos com o constante ruído na linha que derrubava a ligação ou interrompia transferências longas e lerdas. Com o advento das centrais digitais, passamos a ter correção de erros automáticas no tráfego de dados e voz via telefone, o que melhorou em muito a vida de todos. Lembro bem do dia em que ligaram lá pra casa oferecendo (a custo zero!) a troca da linha, que agora dava sinal (dial tone) imediatamente e completava a ligação em poucos segundos. Que maravilha!
Mas a digitalização é algo de aplicabilidade tão ampla que é difícil acompanhar seu advento nas diversas tecnologias que envolvem nosso cotidiano. Uma aplicação muita famosa é o nosso querido CD, que substituiu o bolachão preto. A velha vitrola usava tecnologia analógica para reproduzir um disco; em cada sulco do vinil existiam ranhuras que representavam fielmente a onda de som, a agulha ao se mover pelas ranhuras reproduzia, com perfeição, o que estava ali impresso. Mas, com ruído. Todos devem lembrar que era só colocar a agulha na faixa 0 (o inicio do disco) pra ouvir aquele som característico XshXHXhshsXhsshsX antes de começar a música. O que era aquilo? Nada mais normal: sujeira na agulha, pó no disco, qualquer coisa, a agulha reproduz. O CD acabou com isso, pois desde que inventaram uma maneira de representar a onda de som de forma binária (digital) todas as possíveis melhorias que vem com a digitalização se realizaram. Pra começo de conversa, o leitor é a laser, não encosta no disco, e fica dentro de um recipiente fechado, não há pó ou sujeira que atrapalhe. Como os dados são lidos em bits (microscópicos pedaços de vidro, ora espelhados, ora foscos que representam 1s e 0s), eles podem ser processados antes de serem reproduzidos, o que permite a correção de erros, por isso que CD arranhado toca normalmente, o que era totalmente impossível com vinil. E mais, CDs em carros, que não pulam, mesmo no quebra-mola, pois o player lê “antes” alguns segundos de música e não deixa a musica parar mesmo que a leitura seja interrompida por um solavanco. Fantástico!
Percebe-se claramente como o processo de traduzir coisas analógicas para bits só aumentam a capacidade, qualidade e possíveis evoluções tecnológicas em cada meio trabalhado.
Mas, como sempre, existe o problema da fidelidade e o culto ao vintage. Saudosistas e DJs tops até hoje usam vinil por acreditar que o som mais fiel ainda é proveniente do vinil. Quanto a isso, não há argumentos, afinal o digital, tecnologicamente falando, nunca vai chegar a fidelidade do analógico. No entanto, estamos tão próximos que só ouvidos (ou olhos) extremamente aguçados conseguem perceber a diferença. O DJ consegue perceber, 99% do público (eu incluso) não. Hoje em dia existem sistemas de som analógicos que custam fortunas e são apreciados por aqueles abastados sonófilos que exigem um som “puro” e “fiel”.
Em geral a digitalização é positiva pois barateia a tecnologia, tornando-a mais democrática e acessível. Hoje em dia pode-se comprar um aparelho de DVD por menos de cem pratas. Imaginem quanto tempo demoraria até que um aparelho VHS Hi-Fi chegasse a um preço desses? No meu ver, nunca!
Porém, nem tudo são flores nessa onda digital e você já deve estar se perguntando que diabo de título é aquele. O digital atingiu o video, as fotos e o som portátil. A tecnologia digital é ridiculamente mais barata (e mais descartável) que a analógica. Qualquer um, hoje em dia, com algumas centenas de reais pode ter em mãos um câmera digital capaz de tirar fotos profissionais com esforço zero. A impressão de fotos digitais já está barata, e só compra filme hoje quem odeia câmeras digitais ou quem adora gastar dinheiro. Os MP3 players invadiram de vez o mercado e pelo que observo nas ruas não vão demorar a substituir de vez os Discmans e afins.
Com a digitalização vem a banalização. Se torna tão fácil hoje em dia colocar suas músicas preferidas no iPod ou tirar fotos com seu celular, que o objeto “musica” e o objeto “foto” perdem seu valor original. Pensem em desde que a música passou a ser reproduzida (por pessoas e instrumentos) até hoje (por iPods usados por adolescentes até na mesa do jantar) e faça uma reflexão sobre o valor que lhes era dado em cada época. Antes era necessario um pintor extremamente habilidoso para fazer um retrato fiel de uma pessoa, hoje qualquer celular meia-boca tira excelentes fotos, que cada vez mais, são mais iguais e insípidas – as pessoas tiram as mesmas fotos, nos mesmos lugares, com as mesmas pessoas, afinal, não custa nada.
Outro dia eu estava fazendo uma trilha com minha namorada e vi uma familia que claramente não era muito “dessas coisas”, pois logo no inicio da trilha, aonde não havia nada demais, estavam clickando tudo que se mexia. “Deixa eu ver, deixa eu ver” diz a menina para o irmão, querendo ver a foto que ele acabara de tirar no avancadíssimo display de LCD. Ela estava mais interessada na foto, naquele exato instante (pois esperar uma semana para ver uma foto, nos dias de hoje, é uma noção estapafúrdia), do que em apreciar a natureza exuberante que a cercava. Já deveria estar pensando que, quando chegasse em casa, a primeira coisa que iria fazer seria colocar aquela foto, no orkut e no fotolog, com a legenda “Adoro trilhas”.
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Bem Christian, inicialmente digo que não concordo e nem discordo, muito pelo contrário…
Acredito que a digitalização, como posto, seja realmente a multiplicação dos meios para se realizar determinada ação, e que estamos realmente presenciando uma banalização dos objetos-foco de tais ações. Concordo quando é dito que hoje, no meio adolescente, conta muito mais “andar com um iPod pendurado” do que “ouvir música”. É muito mais importante “carregar uma câmera digital com grande capacidade de armazenamento a um passeio turístico” do que “preservar momentos e eternizar lembranças através de fotografias”.
Mas acho que este lado “negativo” seja apenas algo passageiro. Veja, como tudo que é novidade (afinal, tais “facilidade” e “diversidade” digitais são extremamente recentes), há sempre o primeiro momento de euforia. É natural. Após algum tempo, naturalmente, o que se tornará banal serão tais meios, pois a digitalização será realmente algo muito mais comum e corriqueiro no dia-a-dia de todos (como o é a eletricidade hoje em dia, por exemplo). E aí, nesse segundo momento, novamente o que contará, o que estará em alta, serão os objetos-foco de tais ações, ou seja, a canção que se ouve, uma cena que se vislumbra, um momento que se vive.
Sim, hoje estamos na fase do “Deixa eu ver, deixa eu ver”, mas tenho certeza absoluta que é passageiro, e não tarda vermos essa passagem.
No mais, um ótimo início, meus parabéns!
E vida longa à “Família Reflexões Digitais”!
Abraços,
asm
Realmente Christian, achei muito bom mesmo o seu artigo, por isso, primeiramente, meus parabéns.
Apenas gostaria de acrescentar um pequeno detalhe, apesar de concordar com essa idéia de “novidade” e de que “esse é um fato passageiro”, também acredito que varie muito de pessoa para pessoa e de região para região, conheço muitas pessoas que não fazem a mínima questão de carregar Ipods ou máquinas digitais para todo lugar aonde vão. Também conheço muitas pessoas que ainda apreciam muito mais o que seus olhos vêem do que um simples JPG no computador.
Acredito que as pessoas que hoje não dão valor a “imagem” ou ainda a “música” também não dariam valor se as mesmas fossem tiradas de máquinas fotográficas comuns ou viessem de grandes discos pretos. Essa “banalização” a meu ver não merece deve ser analisada como consequência da “digitalização” mas sim, como consequência do novo modo de pensar das pessoas. Isso não quer dizer que as pessoas que estão erradas, algumas simplesmente gostam muito mais de bits do que de átomos, preferem ouvir música à conversar ou ainda preferem muito mais relembrar tudo que viveram por fotos do que por suas próprias lembranças.
E viva a tecnologia e a individualidade humana.
Talvez essa banalização se reflita na digitalização, utilizando a tecnologia pra promover ainda mais a individualidade que cresce a cada dia em nossa sociedade. A violência urbana, o caos social, talvez ajudem as pessoas a ficarem cada vez mais em casa, já que elas encontraram uma forma de estar “perto” mesmo estando sozinhas, utilizando o skype, google talk, msn e outros artifícios que aproximam mesmo que fisicamente estejamos longe. Acredito numa sociedade extremamente avançada tecnologicamente e não banalizada como a nossa, mas não sei se isso vai acontecer.
Parabéns pelo artigo. Está muito bom.
Abração
Kaléu, muito legal seu comentário. Obrigado.
Naturalmente, o mundo ainda está repleto de pessoas que não foram afetadas em nada pela crescente digitalização e não ficam abobalhadas pelos novos gadgets e seus “poderes mágicos”. Mas é fato que a cara do mundo, especialmente nas grandes cidades está alterada de vez por esse processo.
Só quis ressaltar mesmo em minha reflexão, que a digitalização, apesar de não ser óbvio, tem impacto mais profundo na sociedade do que simplesmente “permitir mais pessoas a ter acesso a mais informações e midia de qualidade”. Ela acaba por alterar profundamente a maneira como as pessoas vêem e experimentam as coisas. Nem quis incluir a internet no artigo, pois isso já foi discutido a exaustão.
E concordo também com meu amigo Anderson, de que isso é passageiro, e que por fim, a expressão humana sempre suplanta a tecnologia empregada e o que hoje abobalha e banaliza, no futuro se tornará tão comum como a eletricididade e proporcionará (como já vem acontecendo) novas e belas formas de arte e expressão humana.
Abraços.
Eu consigo ate imaginar a cena da menininha, pois conheço uma assim, diria um amigo meu “orkuteiro é f$#a”, fazendo uma analise da pessoa ela não aproveita nem um dos dois momentos, na trilha ela estava preocupada em postar logo aquelas fotos, quando chega em casa diante do orkut aberto ela vê as fotos e lembra o quanto era lindo o lugar onde estava, ao meu ver ela não aproveitou bem a oportunidade que tinha. Seu artigo foi otimo e seu personagem ficticio ou real fez, acredito que com todos que leram o artivo, que refletissem. Parabéns novamente pelo artigo e muito sucesso
Atenciosamente
Diego Tolentino
Olá Christian,
Sou fotógrafo profissional e por acaso achei seu blog. Concordo com seu texto e com o comentário do meu xará. Em relação à fotografia digital, houve sem dúvida a banalização, mas a digitalização é realidade. Logo as pessoas vão parar de vislumbrar as facilidades do digital e dar mais atenção ao assunto.
Muitos fotógrafos profissionais ainda morrem de medo do digital e da concorrência desleal, pela facilidade que se tem de errar e fazer de novo até ficar bom, ou corrigir no Photoshop. Apesar de não ter acompanhado, pela minha idade (39a), acho que algo semelhante quando houve a febre das cameras compactas de filme nos anos 70. Muito profissionais acharam que iam ficar sem trabalho.
Gostei muito de conhecer este blog e vou colocar no meu RSS. Tenho um blog para fotógrafos (www.andersonmiranda.com.br/fotografos) e vou colocar lá uma referência a este post.
Abs e sucesso!
[...] Vale a pena dar uma lida: http://www.reflexoesdigitais.com.br/blog/2007/06/13/deixa-eu-ver-deixa-eu-ver/ [...]
Christian.
Primeiramente parabéns pelo texto, no meu blog também escrevi sobre a banalização da fotografia na era digital.
O seu texto e os comentários me fizeram pensar de outro ponto de vista. Gosto de ler pontos de vista diferentes pois sou daquele que acredita que todos estão certos em relações à opiniões pois tudo depende do ponto de vista.
Durante a leitura pensei na frase: “Tudo que é mais difícil de conquistar, é mais valioso”
Tem um texto que escrevi que acredito que a sociedade (urbana) vive num mundo “tudoaomesmotempoagora”, na qual o seu comportamento foi modificado pela evolução dos recursos e os recursos também mudaram por causa da mudança de comportamento.
Os filmes atuais são muito mais rápidos e sufocantes que os de antigamente, que deixavam você pensar entre uma cena e outra. As refeições parecem ser cada vez menos um ato também social e cada vez mais de alimentação e sobrevivência. Os relacionamentos cada vez menos duradouros, a moda em geral que muda rapidamente. Tudo isso é a mudança de comportamento. Torcemos que isso dê uma sussegada. Podemos ver que muitas pessoas estão voltando à calmaria, à vida com um ritmo menos acelerado.
Minha intenção não era de escrever um textão no comentário, mas foi… risos.
Abraços